Thursday, 5 November 2015

Couves D'ouro


Quando faço uma pausa na minha realidade por alguns dias para viver numa outra, fico frequentemente pasmada frente estilos de vida completamente opostos ao meu que vou encontrando. O mesmo core que me impulsiona a fazer o que gosto, todos os dias, é o mesmo que move outras pessoas a fazer coisas que nunca me imaginei a fazer. Não me refiro a ir a África ou à India ou a países exóticos com realidades e contextos culturais completamente opostos aos meus. Refiro-me a lugares que identifico como sendo a minha realidade, pessoas que falam a mesma língua que eu, mas que optam por levar a vida de uma forma diferente, em que o trabalho não pára e os momentos de prazer encaixam nos entretantos. No Douro, esses entretantos são feitos de silêncio absoluto que se ouve quando estamos entre quatro paredes, o horizonte é largo, claro, limpo, aberto, de uma beleza fascinante e o ar que respiramos é puro, absolutamente puro.



(Not) A Bubble and Squeak de Batata doce, abóbora e couve
Inspirado em Nigel Slater, Sweet potato and kale bubble and squeak

500g batata doce
600g abóbora menina
25g óleo de coco
25g de manteiga
1 c.chá sementes de cominhos tostados e moídos
1 c.chá de paprika
1/2 c.chá de malagueta seca, moída
1 c.chá flor de sal
pimenta preta, moída de fresco
200g couve-lombarda

Pré-aquecer o forno a 190ºC com a prateleira no centro.
Cortar as batatas doces ao meio, longitudinalmetne se forem pequenas, ou em pedaços de 2 cm, se forem grandes. Cortar a abóbora em fatias de 2cm. Reservar.
Colocar no forno uma travessa larga com a manteiga e o óleo. Quando as gorduras estiverem derretidas, retirar a travessa do forno. Adicionar a batata, a abóbora, o sal, as especiarias e envolver tudo completamente. Devolver ao forno e assar durante cerca de 30-40 minutos, até começar a ficar bem tostado, dourado e as batatas doces estarem completamente cozidas. Se as batatas ainda não estiverem no ponto, tapar a travessa com uma folha de alumínio para impedir que queime e ir verificando a cozedura.
Entretanto cortar a couve muito grosseiramente, retirando apenas os talos mais grossos.
Retirar a travessa do forno, esmagar grosseiramente a mistura com o garfo, envolvendo a batata e a abóbora com os sucos e especiarias do fundo da travessa e adicionar a couve. Temperar com a pimenta a gosto, tapar com a pelicula e devolver ao forno cerca de 10 minutos, destapar e deixar mais 15 minutos, até a couve ficar tenra e crocante em cima.

serve 2 doses generosas



Tofu salteado com couve portuguesa e quinoa

250g de tofu
1/2 c.chá de pimenta caiena em pó
1 c.chá paprika
1 folha de louro
1 c.chá de pó de caril
2 dentes de alho, laminados
2 c. sopa de azeite virgem extra
1 c.chá de flor de sal
200g de couve portuguesa
2 chávs. de quinoa cozida

sumo de limão
salsa picada, para servir


Cortar o tofu aos cubos de 1,5 - 2 cm. Rasgar a couve aos pedaços e reservar.
Aquecer o azeite numa frigideira larga. quando estiver bem quente, adicionar o louro, a pimenta, o caril, a paprika e o alho, 1 minuto depois, quando começarem a libertar um forte aroma e o alho estiver dourado juntar os cubos de tofu, numa só camada. Ir virando os cubos durante uns 7-10 minutos, virando constantemente o tofu par que fique tostado e bem envolvido em todos os lados. Reduzir o lume e adicionar a couve, envolver e tapar com uma tampa até a couve estar com um tom vivido e tenra, pronta a comer.
Retirar do lume, espremer um pouco de sumo de limão por cima, polvilhar com salsa e servir com a quinoa quente.


serve 2.


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Monday, 19 October 2015

Iamos voar e não voámos. Só tinhamos um alho-francês no frigorífico. E salsa.

Então fiz esta panelada muito boa.
Mais um exemplo de quando a criatividade e o sentido pragmático dão (muito) bons resultados.
Não é nada do outro mundo, pois claro que não. É deste, da minha cozinha e do gosto em pôr comida saborosa, nutritiva, completa e saudável na mesa.

End of story. Vamos comer?



Estufado de alho-francês, grão e quinoa

1 c.sopa azeite virgem-extra
1 alho-francês
2 dentes de alho
1 folha de louro
1/2 cháv. salsa picada, talos separados das folhas
1/2 malagueta picada
400g grão cozido
1 c.chá açafrão das índias
flor de sal
pimenta preta
1/2 (125ml) cháv. de quinoa crua, passada por agua abundante

feta, a gosto

Cortar o alho-francês na longitudinalmente e depois cortá-lo em pedaços de 0,5 - 1 cm. Laminar os dentes de alho.
Levar ao lume o azeite numa panela larga, adicionar o louro, o alho, os talos da salsa picada e a malagueta. Quando o alho começar a alourar, juntar o alho francês e deixar amolecer cerca de 10 minutos, até começar a ficar translúcido. Juntar o açafrão e o grão, envolver tudo, tapar e deixar estufar mais uns 10 minutos.
Juntar a quinoa, 1 1/2 cháv. (375 ml) de água, sal e pimenta, tapar, levantar fervura e deixar a cozer em lume brando até a quinoa ficar cozida, cerca de 20-25 minutos.
Servir morno, com feta despedaçado e as folhas de salsa.

Nota: a quinoa está cozida quando estiver suave, com uma pequena resistência ao trincar e com os pequenos caracóis separados do grão.

serve 2


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Monday, 5 October 2015

Um mais um igual a um mais um

Muitas vezes as melhores coisas que faço acontecem quando cozinho apenas para mim. Sem pressões impostas por mim mesma de ter de agradar a segundos ou terceiros, sem questões de logística sobre as suas preferências, sem expectativas elevadas e apenas com uma grande vontade de satisfazer a minha vontade, passo a redundância.
Na cozinha, como em tudo na vida, o mental e o emocional tem funções concretas, que quando se sobrepõem ao intuicional, dão mau resultado. A nossa mente sabe como colocar os dedos na vertical, ligeiramente inclinados no sentido da faca para laminar finamente o alho, a que temperatura aquecer o forno e em que posição deixar a prateleira para que o bolo coza na perfeição, quanto tempo os ovos devem ficar a cozer para que fiquem cozidos por fora e ligeiramente cremosos por dentro ou a quantidade de açafrão que devemos usar. O nosso coração dá-nos a vontade, a adrenalina, o entusiasmo de pôr as mãos na massa, na faca, de pôr os pés e os braços a trabalhar um dia inteiro para arrancar um sorriso da cara de alguém - quanto mais não seja da nossa. Curioso, agora que penso, o coração dá-nos a razão (mente) para agir. A intuição é saber sem se saber que se sabe. É pegar no óleo de côco em vez do azeite sem que tenha tempo de pensar que "vou escolher óleo de côco em vez de azeite", é juntar a proporção exacta de cada ingrediente, para que nenhum se sobreponha a outro, sem seguir qualquer receita. Intuir é sentir o que nos está a fazer falta, ainda antes de sabermos porquê.

Esta salada explode de sabor. O seu segredo está no abacate e nos temperos. O abacate, para além da sua textura cremosa que adoro acrescentar aos crocantes dos outros alimentos, funciona como um emulsionantes que combina e agrega todos os sabores, aromas e texturas, dando-me vontade de apanhar um pedaço em cada garfada, não precisando de o trincar, apenas de o sentir - daí cortá-lo assim tão laminado. O óleo de coco combina maravilhosamente com os rabanetes e as ervas aromáticas, a lima dá um perfume delicioso, mais doce e mais vibrante que o limão. E nunca é demais dizer que é perfeita para levar para o trabalho.


Salada super aromática de rabanetes, pepino, feijão branco e abacate

6 rabanetes
1 pepino pequeno
2 ovos
1/2 abacate
1/2 cebola roxa pequena
2 c.sopa de hortelã fresca, picada
2 c.sopa coentros frescos, picados
2 c.sopa óleo de coco
1 c.sopa sumo de lima
sal e pimenta
1 c.chá caril
160g  / 2 mãos cheias de feijão branco

Colocar água a ferver, juntar os ovos e deixá-los a cozer cerca de 3-5 minutos, conforme o seu tamanho e o ponto em que os gostam - para ovos grandes para mim 4 minutos são perfeitos para os deixar cozidos por fora mas moles no centro.
Cortar os rabanetes em rodelas o mais finas que conseguirem (da espessura de uma moeda de 1cent. seria o ideal) e colocar numa saladeira. Cortar o pepino em pequenos pedaços, picar finamente a cebola e juntar aos rabanetes. Juntar o feijão branco, as ervas aromáticas, o óleo de coco e o sumo de lima, uma pitada de flor de sal, a pimenta preta, o caril e envolver tudo uniformemente. Provem e rectifiquem o tempero com mais ou menos acidez, ou gordura, ou sal, sempre ao vosso gosto.
Dividir a salada por dois pratos individuais e reservar.
Cortar a metade do abacate em 2 novamente e fatiar cada metade também o mais finamente possível. Dispor cada metade em cima da salada de cada prato, juntamente com um ovo e servir.

serve 2


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Monday, 28 September 2015

360 + 341 + 463 + 129 + WHITE = 3258 C ou A beleza de uma mousse ao pequeno-almoço

Um pequeno-almoço é mesmo bom quando o repito 3 dias seguidos.
Os números são códigos de Pantone. Quando os ossos dos ofícios se juntam todos dá nisto.



Mousse de abacate, pêssego, amêndoas e spirulina 

1/4 abacate, 2 colheradas de iogurte grego, 10 amêndoas tostadas, 1 colher de linhaça castanha moída, 1 pêssego, 1 colher de café de spirulina, 1 dose de proteína com sabor a baunilha (ou 1 c.café pasta de baunilha) e uns 25-35 ml de água. Guarnecida com mais amêndoas tostadas picadas e côco seco tostado.

Tenham um lindo dia meus amigos, e uma semana fantástica.



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Saturday, 26 September 2015

158 C

Outono. Laranja. Ocre. Bronze. Pantone Coated Euro Solid 158 C. Cenouras. Abóbora. Lentilhas. Quente. Mãe. Casa.

Este foi o meu primeiro caril de raiz, há um ano atrás. Não sei bem que requisitos uma receita tem de preencher para que possa ser chamada de caril, mas para mim é certamente caril o suficiente para que o chame assim. É daquelas coisas que comemos e que fica aqui na memória da boca, que se fecharmos os olhos um bocadinho ainda sentimos o sabor, lá atrás, no fundo da língua. Um pedido especial para um jantar para gente feliz e bonita foi o pretexto perfeito para o voltar a fazer, ou não fosse isto o prato ideal para alimentar várias familias de uma só vez.



Caril de Cenoura, Abóbora e Nabo com Lentilhas laranjas

(850g) 6 cenouras
1kg abóbora
450g /2 nabos médios
280g /2 cebolas médias
4 dentes de alho
40g gengibre
40g coentros - folhas e talos separados
4 c.sopa / 60 ml azeite
4 c.chá sementes de cominhos
1 c.chá sementes de mostarda
2/3 c.chá açafrão das índias (curcuma)
1/2 - 1 c.chá pimenta caiena, piri-piri ou outra malagueta em pó
1 c.chá sementes de coentros em pó
2/3 c.chá colorau
2/3 c.chá pimenta preta, moída de fresco
1/2 c.sopa flor de sal
1 cháv/280g lentilhas vermelhas

arroz jasmim
iogurte grego/gordo
lima

Primeiro preparar todos os ingredientes antes de começar a cozinhar. Cortar os vegetais em pequenos pedaços e reservar. Cortar a cebola em fatias de 0,5cm e picar finamente o alho, o gengibre e os talos dos coentros.
De seguida, numa pequena tigela, colocar todas as especiarias já medidas.
Colocar uma grande panela a lume médio-alto, adicionar o azeite e as especiarias e mexer durante 1-2 minutos, até que comecem a libertar um aroma intenso. Mexendo sempre bem, juntar o alho, o gengibre e os coentros e deixar alourar e libertar aroma durante cerca de 30 seg, quando o alho estiver ligeiramente dourado.
Adicionar a cebola até começar a ficar translúcida (baixar aqui um pouco o lume se for necessário) e de seguida adicionar todos os vegetais, juntamente com água apenas o suficiente para cobrir tudo - talvez uns 400ml para começar. Tapar a panela, aumentar o lume para ferver e depois deixar a cozinhar a lume brando até os vegetais ficarem completamente cozidos.
Triturar a mistura com um processador ou com a varinha-mágica até ficar um puré cremoso. Se foi usado o processador, devolver a mistura à panela, adicionar as lentilhas, mexer com a colher para envolvê-las bem na mistura, tapar e deixar cozinhar a lume-brando cerca de 20-30 minutos, até as lentilhas ficarem bem cozidas - eu gosto das minhas ainda com alguma textura e não completamente moles. Se acharem a mistura muito espessa, adicionem mais um pouco de água até obter a consistência desejada. Cuidado para não adicionarem muito de uma vez, ou ficarão com um caril demasiado liquido e com um sabor menos interessante e intenso do que o desejado.

Servir quente, numa bela tigela, sob uma cama arroz jasmim, solto e perfumado, com uma colherada de iogurte, uma espremidela de sumo de lima e as folhas de coentros picadas. Sintam-me à vontade para comer com uma colher ou um pedaço de naan no lugar dela.


serve 8-10


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Tuesday, 8 September 2015

Procurar o novo. Provocar o novo. Fazer o novo, e não de novo.



Iogurte grego caseiro, papaia, côco seco, sementes de sésamo e girassol tostadas, linhaça e leite de espelta 



Fazer alguma coisa diferente todos os dias. Correr de manhã, comer o pequeno-almoço fora, ir a pé para o trabalho, almoçar num sitio novo sozinha, ou no sitio de sempre contigo, começar um novo livro, ligar para alguém, dar um abraço a quem nunca dei, estrear uns brincos novos, pintar os olhos, ir ao museu à hora de almoço, ou ir até casa… contigo, fazer um treino diferente, pegar num bebé, conversar com um estranho na rua, lançar sorrisos espontâneos, receber cócegas de alguém, ir à praia às oito da noite, fazer um tempero novo, estrear a iogurteira, provar açúcar de batata, fazer pão, comprar flores, rever uma amizade de 15 anos, descobrir uma música nova, ler em voz alta para ti na cama.


E chegar a casa cedo.
Cozinhar com calma, com tempo. Não é preciso correr, não é preciso fazer algo de cabeça, que se coma frio ou que se aqueça no microondas. Não é preciso ter 10 coisas a acontecer ao mesmo tempo. Pára e pensa. Hoje tens tempo. Hoje tens tempo. Não deixes aquela abóbora que compraste ontem para um dia em que tenhas tempo. Hoje tens tempo.




Abóbora-menina assada com Côco e Tahini

1 abóbora-menina pequena
4 dentes de alho
1,5 c.sopa óleo de côco, à temperatura ambiente
1,5 c.sopa tahini
1/3 c.copa de gengibre seco
flor de sal
pimenta preta moída de fresco
2 c.chá coentros secos (se tiverem frescos, usem-os de preferência, cerca de 10g / 2 c.sopa picados
2 c.sopa sumo de limão
2 c.sopa sementes de sésamo
1 cháv. bulgur seco


Cortar a abóbora longitudinalmente e depois em fatias (meias-luas) de 1,5-2cm. Tirar a casca e colocar numa assadeira que permita que as fatias ficam apenas numa camada, sem estarem sobrepostas.

Na mesma assadeira, colocar os dentes de alho esmagados, o óleo de côco, o tahini, o gengibre, o sal e a pimenta, os coentros (se forem secos) e o sumo de limão. Com as mãos, envolver a abóbora com tudo até que fiquem totalmente e uniformemente temperadas. Polvilhar por cima as sementes de sésamo e colocar na cloche com a resistência ligada em cima, cerca de 40 minutos, ou até que a abóbora esteja bem cozinhada e dourada, com os sucos a borbulhar. Ir verificando a meio do tempo se está a ficar seco, adicionando um pouco de água se necessário.
Caso estejam a utilizar o forno, pré-aquecê-lo a 200ºC e assar a abóbora durante o mesmo tempo.

Enquanto a abóbora está no forno, passar o bulgur por água abundante num escoador até que a água que escorre saia clara e limpa, e cozê-lo no dobro da água cerca de 10 minutos, depois de ferver. Retirar o excesso de água e reservar.

Depois de assada, Retirar a abóbora para uma tigela quente. Colocar o bulgur na assadeira vazia com os sucos e os temperos que lá ficarem e envolver bem para que o bulgur absorva esses sabores.
Dividir o bulgur por dois pratos, colocar a abóbora por cima e servir quente, polvilhado com os coentros frescos por cima.


serve 2.

Wednesday, 26 August 2015

Beleza


O que é que nos leva a escrever sobre um livro?
O que é que nos leva a escrever sobre um prato de comida?
Sobre o eclipse lunar ou uma aurora boreal?
Sobre uma pena, sobre o cheiro da maresia, sobre uns sapatos?
O que é que nos leva a escrever sobre a voz de alguém? Ou sobre a luz das nove da manhã que entra pelas persianas da cozinha?

A beleza. É esse estado de ser de algo que não pertence a uma coisa nem aos nossos olhos, que paira antes como um equilibrista na linha que se estende entre os dois - feita de experiências, de sensibilidades, idades, contextos, mas maioritariamente feita de coisa nenhuma. Essa linha que só nós sentimos, porque é demasiado ténue para a conseguirmos ver.
Escrevemos porque é a nossa tentativa de perpetuar e materializar - diria que, acima de tudo, racionalizar - o diálogo interno entre nós e aquilo que nos toca - a beleza disso ou a falta dela. Para tentar compreender. Para que nos compreendamos.




Pão de curcuma (açafrão-das-índias) e avelã da Eric Kayser, com ricotta, pimenta preta e umas pedrinhas de flor de sal. Azeite. Sumo de manga e cantaloupe. 


P.S.Agora, por favor, tragam a Eric Kayser de volta à Baixa rapidamente!


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